
O senador Otto Alencar (PSD-BA) ampliou a presença de sua família em cargos estratégicos de fiscalização na Bahia. Enquanto a nora, Renata Giannini Garcia Alencar, atua há cerca de 15 anos como assessora no Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA), o filho, Otto Alencar Filho, tomou posse em dezembro de 2025 como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA), com indicação do governador Jerônimo Rodrigues (PT).
A movimentação reforça a influência política do senador nos bastidores do poder baiano, em um cenário de proximidade com o governo estadual. Otto Alencar, atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, já integrou o próprio TCM-BA como conselheiro entre 2004 e 2010, antes de consolidar sua trajetória na política.
A nomeação de Otto Alencar Filho ocorreu no apagar das luzes no fim de 2025. Aos 48 anos, ele renunciou ao mandato de deputado federal para assumir o cargo no TCE-BA, função vitalícia com aposentadoria compulsória aos 75 anos. O posto é considerado um dos mais cobiçados do serviço público, devido aos altos rendimentos, que podem ultrapassar o teto constitucional com adicionais e benefícios.
Levantamento aponta que, em 2025, conselheiros do TCE-BA receberam remunerações superiores a R$ 82,9 mil mensais, totalizando mais de R$ 4,4 milhões em supersalários ao longo do ano.
Indicado pelo governador Jerônimo Rodrigues, aliado político de seu pai, Otto Filho teve sua escolha cercada por articulações políticas nos bastidores. Ao comentar a nomeação, o novo conselheiro ressaltou sua qualificação:
“Tenho formação acadêmica sólida, com especialização internacional e três pós-graduações, além de cerca de 25 anos de atuação no setor privado e 10 anos no setor público”, afirmou.
No TCM-BA, sua esposa, Renata Alencar, construiu carreira como assessora. Formada em educação física, ela também atuou como empresária no ramo educacional antes de ingressar no serviço público.
O peso político dos tribunais de contas
Os tribunais de contas têm papel central na fiscalização de recursos públicos, na análise de orçamentos e no julgamento das contas de gestores. Por isso, seus cargos são considerados estratégicos no cenário político.
Enquanto o TCE-BA fiscaliza as finanças estaduais, o TCM-BA é responsável pelas contas dos municípios. Especialistas apontam que, devido ao poder de influência dessas cortes, há forte interesse político nas indicações.
Otto Alencar Filho nega que a tradição política da família tenha influenciado sua chegada ao cargo. Segundo ele, tanto sua nomeação quanto a da esposa seguiram critérios técnicos.
“As escolhas foram pautadas por competência, ética, mérito e profissionalismo”, declarou. Sobre a esposa, acrescentou que ela tem histórico de dedicação e responsabilidade no serviço público.
Enquanto Otto comemora a conquista de mais um cargo vitalício para um familiar, o senador Ângelo Coronel (PSD), do mesmo partido, acaba rifado e se vê obrigado a deixar a sigla por falta de espaço. O PSD decidiu apoiar dois nomes do PT ao Senado, deixando Coronel sem vaga dentro do próprio partido.
A saída do senador aprofundou a crise interna na base governista na Bahia e expôs rachaduras no grupo político que sustenta o governo estadual. Em entrevista, Otto Alencar afirmou ter sido surpreendido pela forma como o aliado anunciou o rompimento e reagiu publicamente ao episódio.
“Tentei falar com Ângelo. Seria ontem de manhã. No sábado à noite, não sei o que aconteceu. Ele pegou a metralhadora e saiu atirando para todo lado, saíram notas em todos os jornais dizendo que já estava fora, e eu fiquei parado. Até porque, na segunda-feira passada, quando ele disse que ia para São Paulo, eu liguei justamente para conversar e encontrá-lo”, declarou.
Apesar disso, Otto não explicou por que o PSD, que já tem um senador buscando a reeleição, optou por apoiar dois petistas, decisão que acabou tirando espaço de Ângelo Coronel na legenda.