
Após deixarem o Assentamento Três Irmãos, em Prado, e construírem uma nova história no Assentamento Terra Nova, em Porto Seguro, famílias afirmam que voltaram a enfrentar o mesmo problema: a disputa territorial envolvendo áreas indígenas. Agora, cobram providências do Incra e da Funai e reivindicam indenização pelos prejuízos sofridos.
Famílias do Assentamento Terra Nova, localizado no município de Porto Seguro, no extremo sul da Bahia, relatam uma trajetória de quase quatro décadas marcada por lutas, incertezas, mudanças forçadas e falta de uma solução definitiva para o direito à terra. Em um relato encaminhado à reportagem, um dos representantes das famílias descreve o sofrimento vivido desde 1988 e cobra responsabilidades dos órgãos federais envolvidos no processo.
Segundo o documento, a história começou em 1988, quando 42 famílias ocuparam o Assentamento Três Irmãos, localizado no município de Prado. Na época, os agricultores viviam da produção rural e acreditavam ter encontrado um lugar definitivo para construir suas vidas.
Entretanto, aproximadamente seis anos depois, as famílias receberam a notícia de que a área estaria inserida em território indígena. A informação, conforme o relato, provocou preocupação, tristeza e insegurança entre os assentados, que passaram a conviver com a possibilidade de deixar o local onde já haviam construído suas histórias.
Quatro anos depois, com a homologação do território indígena, representantes da Funai e do Incra compareceram à área para tratar da situação. Entre os representantes citados estão o então chefe regional da Funai, conhecido como Zé Zito, o cacique Alfredo e o representante do Incra, Carlos Borges, da Unidade Avançada de Itamaraju.
Após reuniões e uma audiência realizada em Itamaraju, com participação do Incra, da Funai, do Ministério Público Federal e dos assentados, foram discutidas as condições para a saída das famílias e o pagamento de indenizações.
De acordo com o documento, 25 famílias deixaram a área após receberem uma contribuição financeira do Incra, considerada pelos agricultores insuficiente diante dos prejuízos e de tudo o que haviam construído ao longo dos anos.
Nova terra, o mesmo problema
Em 15 de agosto de 1998, as famílias chegaram à Fazenda Murici, no município de Porto Seguro, área onde posteriormente foi estabelecido o Assentamento Terra Nova.
Os agricultores acreditavam que finalmente poderiam recomeçar suas vidas sem enfrentar novamente os problemas do passado. Porém, segundo o relato, a tranquilidade durou pouco.
Anos depois, receberam novamente a informação de que a propriedade estaria inserida em território indígena. A situação voltou a gerar insegurança entre as famílias, que passaram a temer uma nova saída forçada.
O documento também relata que, posteriormente, foi realizado um levantamento antropológico no Assentamento Terra Nova, conduzido pela antropóloga Leila, de Brasília, com participação de representantes da Funai, do Incra e de lideranças indígenas.
Desde então, segundo os assentados, a comunidade voltou a enfrentar momentos de angústia, pressão psicológica e incerteza sobre o futuro.
Famílias cobram responsabilidade e indenização
Após 28 anos de permanência no Terra Nova, os agricultores afirmam que estão sendo obrigados a deixar novamente o local onde reconstruíram suas vidas, criaram seus filhos e viram crescer seus netos.
O sentimento relatado é de revolta e abandono. Famílias que passaram décadas trabalhando na terra agora se veem diante da necessidade de retirar seus pertences e procurar outro lugar para viver, sem uma definição concreta sobre o futuro.
Os assentados questionam a responsabilidade dos órgãos federais que acompanharam os processos de ocupação, reconhecimento territorial e destinação das áreas.
A principal reivindicação apresentada neste momento é o pagamento de indenização pelos danos materiais, morais, psicológicos e físicos que, segundo as famílias, foram acumulados ao longo de décadas de insegurança e sucessivas mudanças.
"Como ficam as famílias que criaram seus filhos, filhas e netos sem um destino certo?", questiona o representante no documento.
Os agricultores também pedem providências imediatas do Incra, da Funai e dos demais órgãos competentes, para que seja apresentada uma solução definitiva para a situação.
Enquanto aguardam respostas, os assentados acompanham, com tristeza, a saída de antigos companheiros que estão retirando suas mudanças e deixando o local sem saber exatamente onde conseguirão recomeçar suas vidas.
Para essas famílias, a luta pela terra, iniciada em 1988, continua sem um desfecho. Depois de quase 38 anos de história, o que deveria representar segurança e dignidade no campo se transformou em uma trajetória de incertezas e sofrimento.
Assentamento Terra Nova – Porto Seguro (BA), 4 de novembro de 2026. Relato encaminhado por representante das famílias assentadas.
Nota da redação: Esta matéria foi elaborada com base em um relato encaminhado por representantes das famílias do Assentamento Terra Nova.
O Giro de Notícias está buscando posicionamento do Incra, da Funai e dos demais órgãos envolvidos sobre a situação das famílias, as medidas previstas para o reassentamento e a reivindicação de indenização pelos prejuízos relatados.
O espaço permanece aberto para que os órgãos apresentem seus esclarecimentos e informem quais providências estão sendo adotadas para solucionar o problema.