
A delação premiada de Joneuma Silva Neres passou a ocupar posição central em uma investigação de grande repercussão no sul da Bahia. O acordo, homologado pela 1ª Vara Criminal de Eunápolis, reúne detalhes sobre uma suposta negociação de R$ 2 milhões, além de mencionar figuras conhecidas da política estadual.
A colaboração foi firmada junto ao Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), por meio da 8ª Promotoria de Justiça de Eunápolis, sob condução do promotor Igor Saulo Ferreira Rocha Assunção, com apoio do GAECO. A homologação foi feita pelo juiz Otaviano Andrade de Souza Sobrinho, conferindo validade jurídica às declarações.
Suposto golpe e negociação de R$ 2 milhões
De acordo com a delação, o ex-deputado federal Uldurico Alencar Pinto teria sido vítima de um suposto golpe envolvendo integrantes do Comando Vermelho. A negociação girava em torno de R$ 2 milhões, mas, segundo a versão apresentada, apenas R$ 200 mil teriam sido efetivamente pagos.
O restante do valor não teria sido repassado porque o grupo envolvido teria fugido antes da execução completa do plano.
Citações a políticos e esclarecimentos
A delação também menciona a deputada estadual Cláudia Oliveira, porém sem qualquer acusação direta. Segundo o relato, ela teria apenas apresentado Joneuma ao ex-deputado Uldurico, quando a colaboradora ainda atuava no setor administrativo do Conjunto Penal de Teixeira de Freitas.
Não há, nesse ponto, indícios de participação da parlamentar em qualquer esquema criminoso.
Já em relação ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, também não há acusação formal. A delação aponta que mensagens teriam sido enviadas por Uldurico como se fossem de Geddel, numa tentativa de pressionar pelo pagamento de valores, referidos como “as rosas”. O ex-ministro, inclusive, não foi denunciado pelo MP-BA.
Revelação pessoal amplia repercussão
Outro ponto que aumentou a repercussão do caso foi uma declaração pública de Joneuma nas redes sociais, afirmando que um teste de DNA teria comprovado que sua filha é de Uldurico, e não de outro indivíduo conhecido como “DADA”.
Benefícios da delação
Como parte do acordo, foram concedidos benefícios legais à colaboradora. A pena total foi fixada em 6 anos de prisão, após redução de dois terços sobre a pena máxima de 18 anos.
O cumprimento foi definido da seguinte forma:
O acordo também estabelece regras rígidas, como restrições de visitas, controle de deslocamento, proibição de eventos sociais e obrigação de apresentação periódica de relatórios ao Judiciário.
c) não poderá realizar viagens internacionais;
d) poderá realizar viagens dentro do território nacional, desde que respeitado o período regular de recolhimento noturno em sua residência;
e) poderá a COLABORADORA, a cada período de 06 (seis) meses no presente regime, ausentar-se por até 07 (sete) dias para local diverso dos previstos no item “b.iv”, dentro do território nacional, desde que respeitado o período regular de recolhimento noturno e que comunique previamente ao Juízo da Execução, com antecedência mínima de 07 (sete) dias.
Além disso, Joneuma deverá pagar multa equivalente a um salário mínimo e terá restituído o valor de R$ 8.171,75 apreendido no momento de sua prisão.
“O representante do Ministério Público solicitou a aplicação de medida que proibisse a acusada de exercer cargo público. No entanto, ela já se encontra afastada das funções de agente penitenciária.”
Investigação segue em andamento
A homologação do acordo permite que as informações prestadas passem a integrar oficialmente as investigações, servindo como base para novos desdobramentos.
Apesar das citações a nomes conhecidos, o próprio conteúdo da delação exige cautela: menções não significam, necessariamente, envolvimento direto ou comprovação de crime.
Ainda assim, o caso segue gerando forte repercussão na região, envolvendo valores elevados, suspeitas de organização criminosa e impactos no cenário político, especialmente para o ex-deputado Uldurico, que tinha pretensões eleitorais recentes.
Ex-deputado Uldurico Júnior foi preso na Operação Duas Rosas
O ex-deputado federal Uldurico Júnior foi preso no dia 16 de abril de 2026, durante a Operação Duas Rosas, deflagrada pelo Ministério Público da Bahia. A investigação ganhou força após a delação premiada da ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres.
Segundo o depoimento, o ex-parlamentar realizava visitas a unidades prisionais acompanhado por pelo menos cinco pessoas. Entre os nomes citados, dois são investigados diretamente: Alberto Cley Santos Lima e Matheus da Paixão Brandão. Outros três foram apenas mencionados: Jonatas dos Santos, David Loyola e Clebson Porto.
De acordo com a delação, Uldurico participava de reuniões privadas com líderes de facções criminosas dentro do presídio. Nessas ocasiões, teria negociado a fuga de detentos mediante pagamento de R$ 2 milhões. Ainda conforme o relato, o ex-deputado teria recebido R$ 200 mil de forma antecipada — parte em dinheiro, guardado em uma caixa de sapato, e parte por transferência via PIX.
A fuga mencionada ocorreu em dezembro de 2024 e envolveu 16 presos, incluindo um líder criminoso conhecido como “Dada”. Inicialmente, o plano seria resgatar apenas dois detentos, mas acabou sendo ampliado para um grupo maior.
A ex-diretora Joneuma Silva Neres afirmou ainda que sofreu pressão e ameaças para manter silêncio sobre o esquema e que atuava como intermediária na comunicação entre o ex-deputado e os criminosos.
A defesa de Uldurico Júnior nega todas as acusações e afirma que elas são falsas. Apesar disso, o Ministério Público da Bahia aceitou a denúncia, resultando na prisão do ex-parlamentar, enquanto outros envolvidos seguem sob investigação.