
O Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) denunciou seis policiais — militares e civis — por envolvimento na morte de dois homens durante a chamada “Operação Travessia”, realizada no dia 10 de maio de 2025, no distrito de Caraíva, em Porto Seguro, no extremo sul do estado.
De acordo com a denúncia, os policiais Alan Brito Ribeiro, Anderson Luís Mota de Andrade, Angelo Rodolfo dos Santos Reis, Arthur Campos Barreto, Lúcio Mário Santos Sousa e Rodrigo Nogueira Mota são acusados de participação direta na ação que resultou nas mortes de Davisson Sampaio dos Santos, conhecido como “Alongado”, e Victor Cerqueira Santos Santana, o “Vitinho”.
Execução e ausência de confronto
Segundo o MP-BA, as vítimas foram mortas por disparos de armas de fogo de uso restrito, em plena via pública, sem qualquer chance de defesa.
A investigação aponta que não houve confronto, contrariando a versão apresentada inicialmente pelos agentes.
Laudos periciais reforçam essa conclusão, indicando que não foram encontrados resíduos de pólvora nas mãos das vítimas — evidência de que elas não efetuaram disparos.
Ainda conforme o documento, os policiais teriam agido de forma coordenada, com divisão de tarefas e unidade de propósito, o que caracteriza uma ação conjunta que terminou na execução dos dois homens.
Versão dos policiais é contestada
Nos depoimentos, os seis agentes afirmaram que foram recebidos a tiros ao chegar ao local da operação. Segundo eles, apenas dois policiais — Anderson Luís Mota de Andrade e Angelo Rodolfo dos Santos Reis — teriam efetuado disparos.
No entanto, o Ministério Público sustenta que essa versão não se sustenta diante das provas técnicas e testemunhais colhidas durante a investigação.
Fraude e tentativa de encobrir o crime
Um dos pontos mais graves da denúncia é a acusação de fraude processual. De acordo com o MP-BA, os policiais teriam tentado simular um confronto armado para justificar as mortes.
Entre as irregularidades apontadas estão:
Apresentação de uma arma atribuída a uma das vítimas, apesar de testemunhas afirmarem que ela estava desarmada
Retirada dos corpos antes da realização da perícia, alterando a cena do crime
Recolhimento indevido de provas, como munições e imagens de câmeras de segurança
Restrição da circulação de moradores, dificultando o registro da ocorrência
Além disso, policiais de uma segunda equipe, denominada “Grupo Bravo” — formada por Elton Barbosa de Oliveira, Fredson Viana dos Santos, Daniel Alves da Silva e Joelson dos Santos Anjos — também teriam participado da alteração do cenário do crime.
Crimes e possíveis punições
Os seis denunciados respondem por:
Duplo homicídio qualificado, com agravantes como motivo torpe, impossibilidade de defesa das vítimas e uso de arma de uso restrito
Fraude processual, no caso dos policiais civis envolvidos
O MP-BA também solicitou:
A condenação dos acusados
A perda dos cargos públicos
Indenização às famílias das vítimas
Gravidade e repercussão
Para o Ministério Público, o caso revela uma situação extremamente grave, com indícios de que agentes públicos utilizaram a estrutura do Estado para cometer crimes e, posteriormente, tentar encobri-los.
A denúncia aponta ainda execução de civis indefesos, manipulação de provas e possível atuação coordenada entre diferentes forças policiais — o que amplia a gravidade do caso e levanta questionamentos sobre a condução da operação.
Quem era Vitinho
Victor Cerqueira Santos Santana, conhecido como “Vitinho de Luzia”, tinha 28 anos e era natural de Itabela. Ele havia se mudado para Caraíva em busca de oportunidades de trabalho.
Segundo relatos, atuava como guia turístico e era reconhecido por moradores e visitantes como um trabalhador dedicado, responsável e de boa convivência. De acordo com informações, não possuía passagem pela polícia.
A morte do jovem gerou forte comoção e revolta entre moradores de Caraíva. A comunidade se mobilizou em busca de esclarecimentos e justiça, com manifestações no distrito reunindo familiares, amigos e moradores.
Além dos protestos presenciais, uma campanha virtual foi criada e já reúne mais de 27 mil assinaturas, reforçando a cobrança por respostas das autoridades.
Familiares afirmam que receberam a notícia dos indiciamentos como um alívio, mas reforçam que, na visão deles, o caso se trata de uma execução — e que a luta por justiça continua.
Diante do exposto, o Ministério Público requer a decretação do afastamento cautelar das funções de policiamento ostensivo dos acusados Alan Brito Ribeiro, Anderson Luis Mota de Andrade, Angelo Rodolfo dos Santos Reis, Arthur Campos Barreto, Lúcio Mario Santos Sousa e Rodrigo.
A fixação do prazo inicial de 180 (cento e oitenta) dias de afastamento cautelar, no caso em análise, sem prejuízo de posterior reavaliação, mostra-se suficiente para alcançar o resultado útil da persecução penal.
Além do afastamento, o Ministério Público requer ainda que os acusados sejam proibidos de manter contato com os familiares das vítimas Davisson Sampaio dos Santos, vulgo “Alongado”, e Victor Cerqueira Santana, conhecido como “Vitinho”, bem como com as testemunhas já identificadas nos procedimentos apuratórios, medida que visa preservar a ordem pública e garantir a adequada instrução processual. A denúncia segue agora para apreciação da Justiça.
A reportagem não conseguiu manter contato com as defesas dos policiais citados na denúncia até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações.”