
A crise que atinge a cadeia produtiva do cacau na Bahia ganhou novos contornos nesta sexta-feira, com a divulgação de uma nota pública da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (Faeb). A entidade anunciou a adoção de uma série de medidas para enfrentar o que classifica como graves distorções no mercado cacaueiro, incluindo a suspeita de formação de cartel na compra do cacau baiano, o uso inadequado do regime de drawback e a insegurança gerada pela Instrução Normativa nº 125, que estabelece regras fitossanitárias para produtos importados.
Um dos principais pontos levantados pela Faeb é o alto volume de importações de amêndoas de cacau, realizadas por empresas compradoras, mesmo diante de informações que indicam que a produção nacional seria suficiente para abastecer a indústria moageira. Para aprofundar a investigação, a federação solicitou à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) a realização de estudos econômicos que avaliem a possível existência de cartel e analisem o funcionamento do regime de drawback no setor, incluindo prazos, volumes importados e mecanismos de fiscalização.
Com base nesses levantamentos, a Faeb pretende pressionar o governo federal pela revisão do drawback, mecanismo que permite a suspensão ou isenção de tributos sobre insumos utilizados na produção de bens destinados à exportação. As propostas contam com o apoio de sindicatos rurais da região cacaueira e serão formalizadas junto a deputados federais, senadores e à Frente Parlamentar da Agropecuária.
Na nota assinada pelo presidente da entidade, Humberto Miranda, a Faeb reforça a importância econômica e social do cacau para a agropecuária baiana, destacando o papel do setor na geração de emprego e renda, especialmente no sul do estado. O documento informa ainda que, a pedido da Faeb e da CNA, o Ministério da Agricultura enviará técnicos e pesquisadores à Costa do Marfim, entre os dias 1º e 14 de fevereiro de 2026, para a realização de uma nova Análise de Risco de Pragas relacionada às importações do produto.
A insatisfação dos produtores vem se intensificando desde o final de 2025. Agricultores, especialmente do sul da Bahia, têm promovido protestos contra a importação de amêndoas de cacau, principalmente de países africanos como Costa do Marfim e Gana. Segundo os produtores, a entrada do produto estrangeiro, autorizada para suprir a demanda da indústria de moagem, tem provocado a queda dos preços internos e colocado em risco a sustentabilidade da produção nacional.
Durante uma manifestação realizada nesta segunda-feira no sul do estado, produtores também criticaram o governo estadual. O protesto ganhou repercussão após a presença do governo usando um chapéu com símbolo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os manifestantes afirmaram que o gesto simboliza distanciamento das pautas do setor produtivo e defenderam maior atenção às demandas dos cacauicultores, um dos pilares históricos da economia baiana e da geração de empregos na região.